Esse é o lugar onde eu deveria explicar do que se trata este blog, mas... como quem gosta de definições ou rótulos é extrato de tomate ou sabão em pó, vamos deixar assim mesmo e dizer apenas que este é um blog sobre o tudo, o nada e mais alguma coisa.

Se a vida lhe der um limão, faça uma limonada.

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Cena 1

Estou numa fase de reencontrar as pessoas. Ontem revi uma amiga de muitos anos atrás: a Patrícia. Papo vai, papo vem, ela me falou de seus planos para universalizar algumas palavras que ela considerava essenciais:

Amor
(“porque é um sentimento nobre”)

Chocolate
(“porque é um alimento nobre”)

Caralho
(“porque é um xingamento nobre”)

Lantejoula
(????????????)

“Porque eu adoro falar ‘lantejoula’! Repita comigo: lan-te-jou-la! Olha que delícia!”

E eu que achei que só eu prestasse atenção nestas coisas! Estranheza típica de quem já morou fora do Brasil.

Cena 2

qual seu nome?
Marcelo.
é? Então somos xarás, o meu também é Marcelo.
ah é?
isso. Você acha seu nome bonito?
eu acho.
eu também acho.
e você acha seu nome bonito?
acho sim. você também acha?
eu também.

Uma das conversas mais profundas que alguém pode ter é com um menino de 3 anos.

Não pode tocar...

Entro num museu, páro em frente a um quadro, a uma escultura, a uma cerâmica, e enxergo o aviso: não pode tocar. Não posso, então não toco, tudo bem. Não tocarei pra não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos. Nada de sentir a textura do material, nada de deixar minhas digitais impressas, de desgastar as cores com meus dedos. Então a gente respeita, não chega muito perto, não atravessa a linha amarela, nada de macular a obra com nosso hálito quente e nosso olhar aproximado demais.

Assim é também entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre amigos que procuram se proteger: não se pode tocar em determinados assuntos.

Há questões que arriscam ser maculadas com palavras, que um olhar aproximado demais poderia danificar. Instaura-se sempre um silêncio de museu ao nos aproximarmos de temas perigosos. Tolera-se apenas o som da tevê, de um teclado de computador, de alguém falando ao telefone, ruídos parecidos com silêncio, já que não fazem barulho excessivo, não incomodam o suficiente. Palavras incomodam o suficiente. Vamos falar sobre o que nos aconteceu cinco anos atrás. Vamos conversar sobre a morte do seu pai. Vamos tentar entender juntos a razão de você estar bebendo desse jeito. Me diz o que te perturbou na infância. Não, não quero tocar neste assunto.

Mantenha-se atrás da faixa amarela, não chegue muito perto, não acerque-se de meus traumas, não invada meus mistérios, não atrite-se com o meu passado, não tente entender nada: é proibido tocar no sagrado de cada um.

Todas as relações do mundo possuem sua prateleira de cristais. Há sempre um suspense, uma delicadeza ao transitar pela fragilidade do outro. Melhor não falar muito alto, é mais prudente ir devagar e com cuidado. Para não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos.



- Marcelo inventou história aqui às 15h53
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Feriado 02 de novembro

Aconteceu mais ou menos assim:

Estávamos no Shopping Barigui para assistir A Dona da História (pela segunda vez), aproveitando o domingo de feriado para encontrar os amigos: Tico, Joana, Amanda, Vina, Rodrigo e eu.

Quando me dei conta, uma força estranha nos levou ao centro daquele templo do consumo, num lugar onde crianças eram exploradas a pagar 10 paus para pular por 3 minutos numa cama elástica, com cordas elásticas amarradas na cintura.

Não lembro de mais nada, devo ter sido alvo de algum magnetismo hipnótico. Quando me dei conta, estávamos na fila do ingresso:

(a mulher do balcão): "Quantas?"
(Marcelo zumbi): “Opa, desculpa, pois não?”
(mulher do balcão): “Quantas crianças?”
(Marcelo arroz-de-festa): “Somos nós mesmos moça, a gente quer brincar também!"

Q fiasco...

E pra piorar a situação, havia um rapaz muito entusiasmado com o trabalho de amarrar as crianças e puxá-las para o alto com as cordas. Com certeza sua foto está no quadro de funcionário do mês. (irônico)

Top 10 do feriado

- Waffle com calda de chocolate e uma bola de sorvete
- Nenê babando no ombro do pai
- Menininho batendo no Vina sem motivo aparente
- Pular no Eurojump do Shopping Barigui e dar 3 min de piruetas por R$ 10
- Tour pela noite curitibana no domingo à noite
- Sapo que foi para a festa do céu escondido dentro da viola porque não tinha asas
- Celular da verdade
- Funcionário do mês
- Escuridão atrás da porta
- Sobrinhos invadindo meu quarto às 9h da madruga

Tudo isso sem ordem alguma, pois feriado é um caos.



- Marcelo inventou história aqui às 12h23
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Os nossos caricaturistas

Dizíamos na introdução da série “Ninguém alcança a felicidade sozinho” que o homem só é humano enquanto vive em sociedade. Quem já leu a história de Robinson Crusoé lembrará que, no momento em que ele encontra a pegada de Sexta-feira na areia da praia, começam seus problemas éticos. Já não se trata apenas de sobreviver, como um animal na natureza; agora precisa começar a viver humanamente, ou seja, entre homens. O que faz a vida ser humana é o transcorrer em companhia de seres humanos, falando com eles, sendo respeitado ou traído, amando, fazendo projetos e recordando o passado, desafiando-se, organizando juntos as coisas comuns, jogando, trocando símbolos...

Nesse caldo de relacionamentos, não devemos apenas aos amigos o nosso amadurecimento e progresso na vida. Também aquelas pessoas “indesejáveis”, que nos importunam, deixam incomodados, ajudam nessa mesma finalidade.

Se pudéssemos conceber uma pessoa perfeita, cujo caráter não se ressentisse de nenhum relacionamento, tal indivíduo seria inacessível a qualquer tentativa de irritá-lo. Muitas vezes desejamos ser essa pessoa, que não deixa transparecer nenhum defeito aos olhos dos outros. Mas, os “indesejáveis” parecem sempre descobrir essa brecha, tornando à mostra justamente o nosso ponto fraco. A isto se deve nossa reação de querê-los longe, porque insistem em lembrar de que não somos perfeitos.

Dizem que os rinocerontes são praticamente invulneráveis às balas de armas de fogo, pela resistência da sua couraça. Conhecendo essa particularidade, os caçadores buscavam atingi-lo no focinho, o ponto vulnerável por onde a bala penetra, matando-o.

Parece que certas pessoas agem justamente como o caçador, com ou sem intenção. Lembram de que sou realmente “egoísta”, “irresponsável”, “superficial”, e outras coisas que todos nós temos mal-resolvidas dentro de nós pela repressão do pensamento – afinal, ninguém será seu amigo se você for chato, mostrar os defeitos que você possui. Esquecem que todos nós temos nossas imperfeições, em maior ou menor grau, e que reprimi-las não fará nada para que se resolvam.

Os caricaturistas são pessoas que se dedicam a descobrir nossos aspectos físicos mais que nós mesmos. Dedicam-se ao conhecimento das nossas características mais acentuadas (aquele nariz que achamos que não é tão grande, a boca, as orelhas...), já que mostram pelo desenho o que normalmente não queremos ver – os nossos “defeitos” ampliados. Conheço pessoas que sentem pavor ao ver um caricaturista, talvez pela dificuldade de aceitar seus “defeitos” ou como realmente são fisicamente (claro, um pouco mais exagerado).

Aquelas pessoas que normalmente achamos “indesejáveis” procedem como os caricaturistas, com a diferença que estes exageram os aspectos físicos, enquanto que aqueles enxergam os aspectos morais ou psíquicos. A habilidade do caricaturista está em pôr em evidência certas desarmonias da nossa fisionomia.
Os caricaturistas morais, no entanto, conhecem o lodo guardado e escondido dentro de nós, e fazem o trabalho de lembrar-nos de nossa figura mal-resolvida.
É um trabalho que normalmente os nossos amigos não fazem, com raras exceções, pois têm medo (muito natural) de perder o amigo.

Vamos comparar com uma jarra de água que possui no fundo uma porção de terra. Enquanto a água estiver parada, a terra irá permanecer imóvel no fundo da jarra, dando a impressão para quem olha superficialmente de que aquela jarra contém água limpa. Se resolvermos adicionar mais água à jarra, esse movimento de água limpa que entra revolverá o lodo do fundo da jarra fazendo-a transbordar. À primeira vista, a água aparecerá mais suja do que anteriormente por causa da agitação, mas com o tempo a lama, transbordando junto com a água, sairá do recipiente, tornando o conteúdo do jarro cada vez mais limpo, drenando o lodo estacionado no fundo.

Revolver o lodo dos nossos defeitos do fundo da jarra – este é o trabalho que os “indesejáveis” fazem conosco. Não chamamos de “indesejáveis” apenas os nossos inimigos de carteirinha, aquelas pessoas que odiamos, mas também aqueles amigos ou pessoas próximas que às vezes nos fazem desejar que sumam da nossa frente.

Tantas vezes acontecem essas dificuldades de relacionamentos que acabamos por nos conhecer melhor, podendo então corrigir as desarmonias do caráter, a fim de não sentirmos mais o desejo de afastar os “indesejáveis”, por não incomodarem mais. Por isso, essas pessoas e situações prestam-nos valioso serviço, no qual vale a pena refletir.

A água limpa, no começo, irá se tornar um pouco mais suja, pelas sensações naturais e instintivas que sentimos – raiva, contrariedade, orgulho, etc -, mas você está trabalhando as suas más inclinações. Por isso o trabalho de renovação dos sentimentos é difícil, por isso amar é difícil, porque é preciso trazer a tona nossas dificuldades, e resolvê-las.

Não reprimir os pensamentos, mas parar para conversar consigo mesmo – “O que é este desejo? Porque ajo assim? Porque sinto raiva com essa pessoa? Porque ela me incomoda?” – é o melhor a fazer para não deixar esse lodo estacionado e escondido, e principalmente não guardar ressentimentos.

Agora a pergunta milionária: algo disso tudo diz alguma coisa sobre os relacionamentos amorosos?

(PS: Para aqueles que comentaram e comentarão daqui por diante, aviso que responderei os comentários na própria janela de comentários. Vejam no post anterior, por exemplo)

Bibliografia que influenciou a produção desse texto:
VINÍCIUS. Em torno do Mestre. Editora da FEB, 1991.
SAVATER, Fernando. Ética para meu filho. Martins Fontes, 2004.
CASARJIN, Robin. O Livro do Perdão.



- Marcelo inventou história aqui às 14h48
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